A Alma Quer Mais
Por que as verdades claras e óbvias não são suficientes para viver.
Há uma inquietação que nos é constitutiva. Um tipo de inquietação funda que ressurge sempre que o silêncio dura tempo suficiente para que possamos nos ouvir. É uma inquietação de quem percebe que ainda não sabe o que precisaria saber para viver bem.
Somos seres que conhecem parcialmente, e isso nos atormenta.
Porém, essa parcialidade não é apenas tão somente epistemológica, ela também é ontológica. O homem não é um ser completo que, por acidente, ignora certas coisas. É um ser estruturalmente aberto, constituído por uma falta que o define tanto quanto o que ele já possui. Os gregos perceberam isso quando disseram que o homem é o único animal que pergunta pelo ser1. Os medievais aprofundaram ao dizer que o homem é imagem de algo que o transcende, e que essa imagem, por ser imagem, tende sempre ao original2. Em ambos os casos, o que se descreve é a mesma realidade: o homem é o ser que, por dentro, aponta para fora de si.
Isso tem consequências para a maneira como entendemos o conhecimento. Há um tipo de conhecimento que satisfaz a inteligência sem tocar a alma. Sabemos que dois mais dois são quatro, que o sol nasce a leste, que os corpos caem segundo leis descritíveis com equações elegantes. O conhecimento técnico e matemático avançou de tal maneira que hoje conseguimos prever eclipses com precisão milimétrica, sequenciar o genoma humano, conectar pessoas em tempo real por entre continentes. São conquistas reais. O domínio sobre a natureza cresceu de maneira que nenhuma geração anterior poderia imaginar.
E, no entanto, o mal-estar cresceu junto. O século que mais avançou tecnicamente foi também o que produziu as guerras mais devastadoras, os totalitarismos mais sofisticados e, no seu ocaso, uma epidemia silenciosa de vazio existencial que os psiquiatras tentam nomear com categorias clínicas e que as pessoas vivem como uma sensação difusa de que algo falta, sem saber bem o quê. A técnica oferece meios. Organiza o mundo exterior com eficiência crescente. Todavia, o mundo interior não se deixa organizar por ferramentas. Ele exige outra coisa: um descobrimento. Uma viagem para dentro que não tem atalhos e que nenhum algoritmo pode fazer no lugar do homem.
O problema é que esse descobrimento anímico foi sistematicamente adiado. A cultura moderna aprendeu a preencher o silêncio antes que ele pudesse falar. Há sempre um estímulo disponível, uma tela acesa, uma notificação, uma tarefa urgente. A inquietação existe, mas é interrompida antes de se tornar pergunta. E uma inquietação que não vira pergunta não leva a lugar nenhum. Fica circulando como energia sem destino, manifestando-se em irritabilidade, em compulsão, em relações que começam com intensidade e terminam em tédio.
O homem busca verdades que o digam algo sobre si mesmo. Quem é Deus? Qual o sentido do que me acontece? O que é, afinal, o amor, esse fenômeno que nos arrasta e nos faz perder o chão? São questões que os filósofos chamaram de “últimas coisas”, e é em direção a elas que o homem caminha desde que aprendeu a caminhar. A alma que as formula está viva. A que para antes disso ficou pelo caminho.
Poder-se-ia imaginar que a filosofia resolvesse o problema. Aristóteles demonstrou que deve existir um primeiro motor imóvel, causa de todo movimento, ele mesmo incausado. É uma das conquistas mais impressionantes da razão humana. O argumento funciona, a conclusão é sólida, e a alma permanece fria. Uma demonstração oferece certeza lógica. A alma quer uma relação.
É aqui que Agostinho ilumina o que a filosofia sozinha deixa em aberto. No início das Confissões, ele dirige-se diretamente a Deus e reconhece que o homem quer louvar a Deus, esse fragmento da sua criação. A palavra que usa é “portio”3, uma porção, um pedaço. O homem é apenas uma fração do que existe, e ainda assim carrega dentro de si um impulso que aponta para além de si. É o desejo de conhecer aquilo que pode, por fim, aquietá-lo.
A grande descoberta agostiniana é precisamente essa: a inquietação do homem não é um problema a resolver com mais informação ou com maior eficiência. É uma estrutura. Faz parte do que o homem é. E se faz parte do que o homem é, então a pergunta pelas últimas coisas não é opcional. É a pergunta mais humana que existe. Suprimi-la não é alcançar a paz. É amputar algo essencial e chamar de saúde a ausência de dor.




