Caminho do Sol — Por Daniel Macedo

Caminho do Sol — Por Daniel Macedo

O Que de Fato Existe?

Uma explanação didática para finalmente entender a Querela dos Universais.

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Daniel Macedo
jun 04, 2026
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Disputa de Paris – Wikipédia, a enciclopédia livre

O problema em uma pergunta simples

Quando você vê um cachorro na rua e depois vê outro cachorro em casa, você reconhece que os dois são cachorros. Mas o que é exatamente esse “cachorro em geral” que permite o reconhecimento? Existe alguma coisa no mundo que corresponde à palavra “cachorro” além dos animais particulares que você pode tocar e ver? Ou “cachorro” é apenas um nome conveniente que criamos para agrupar animais parecidos? Essa pergunta aparentemente simples ocupou os filósofos medievais por séculos e recebeu o nome de querela dos universais1.

O texto de hoje procurará apresentar os antecedentes históricos da querela, suas principais posições e as consequências que ela produziu para a filosofia medieval, moderna e contemporânea. Embora o tema seja frequentemente tratado como uma curiosidade erudita destinada a especialistas, trata-se de uma discussão que toca algumas das perguntas mais fundamentais que um ser humano pode fazer acerca da realidade.

E já adianto: este talvez seja um dos textos mais valiosos que já publiquei por aqui. O assunto é árido, exige esforço e dificilmente aparece explicado de forma acessível fora de ambientes acadêmicos especializados. Em tempos nos quais a atenção é consumida por conteúdos instantâneos e descartáveis, dedicar-se a compreender a querela dos universais é quase um ato de resistência intelectual.

Antecedentes: de Platão a Boécio

A querela dos universais não nasceu na Idade Média, ela tem raízes na filosofia grega e chegou aos medievais por meio de uma cadeia de transmissões, que sem compreendê-la torna-se inviável entender a Querela em questão.

Platão foi o primeiro a colocar o problema com toda a força. Para ele, as coisas que vemos no mundo sensível (este cachorro, aquela pedra, este homem) são imperfeitas e passageiras. Mas o conceito geral “cachorro” ou “ser humano” é eterno, imutável e perfeitamente definido. Platão concluiu que esses conceitos gerais são mais reais do que as coisas particulares: eles são as Formas ou Ideias, que existem num plano próprio, separado do mundo sensitivo. O que vemos com os olhos são apenas cópias, simulacros e sombras imperfeitas dessas Formas. Assim, para Platão conhecer é justamente ascender das sombras à contemplação das Formas — e isso explica por que ele valorizava tanto a matemática: os triângulos e os números existem com uma perfeição que nenhum objeto físico possui.

Aristóteles, discípulo de Platão, aceitou a existência dos universais mas rejeitou o mundo separado. Para ele, não fazia sentido postular uma “Humanidade em si” pairando num plano metafísico distante: o universal “ser humano” existe, sim, mas nas próprias coisas particulares, como a forma que organiza a matéria de cada indivíduo. Conhecemos o universal por meio da abstração: ao observar muitos homens particulares, o intelecto extrai o que há de comum entre eles e forma o conceito geral. Os universais são reais, mas não separados. Estão encarnados na realidade que tocamos e vemos.

Essa diferença entre Platão e Aristóteles já esboça os dois grandes polos do debate posterior: universais separados das coisas ou universais dentro das coisas.

Porfírio, filósofo neoplatônico do século III d.C., escreveu uma introdução à lógica de Aristóteles chamada Isagoge — e ali, com aparente modéstia, recusou-se a responder à pergunta central: os gêneros e as espécies (ou seja, os universais) existem na realidade ou apenas no pensamento? Se existem na realidade, são corpóreos ou incorpóreos? Se existem apenas no pensamento, correspondem a algo real ou não? Porfírio disse que a questão era difícil demais e que não era hora de tratá-la. Mas ao formular a pergunta com tanta precisão, ele a legou aos séculos seguintes como uma espécie de problema oficial, aguardando solução.

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